O termo “empoderamento”, transcrição portuguesa para o conceito de empowerment, vem sendo amplamente utilizado atualmente nas redes sociais brasileiras e portuguesas, podendo já se dizer que ele pertence à categoria de “meme”. O recurso ao empoderamento surge quotidianamente em batalhas simbólicas de diversos grupos sociais, como os feministas, os de comunidades negras, de LGBTX, imigrantes.

A partir dessa proliferação de entendimentos e usos do empoderamento, eu proponho um exercício de transposição do conceito para o nosso campo, a Educação da Cultura Visual, tendo em vista que o poder visual é um tema que considero bastante importante de ser trabalhado em artes na sala de aula. Lanço as seguintes perguntas, então: “o que seria o empoderamento visual”? e ainda, “para que serviria empoderar-se visualmente?
A Pedagogia do Empoderamento
No campo de estudos da pedagogia crítica, o conceito de “pedagogia do empoderamento” foi cunhado por Roger Simon e Henry Giroux na década de 1980, definido nos seguintes termos:
“Empoderamento literalmente significa habilitar, permitir ou possibilitar. Quando ouvimos a palavra empoderamento utilizada em educação, geralmente ela é empregada no sentido de crítica. Refere-se à identificação de uma relações de opressão e injustiça, que resulta numa limitação localizada nos sentimentos, pensamentos e ações humanas. Essa limitação é vista como algo que constrange a pessoa da oportunidade de participar em equidade de termos com outros membros de um grupo ou comunidade, os quais são socialmente identificados pelo status de “privilegiados” ou “competentes” (Simon, 1987: 374)
A partir dessa definição, Simon defende que a pedagogia do empoderamento deva desenrolar-se em duas dimensões: primeiro, no campo curricular, sendo o currículo um recorte da realidade, um discurso construído politicamente, que pode ser lido e re-escrito a partir de múltiplas vozes; e segundo, localizando as razões para o empoderamento. Neste sentido, o professor não será o indivíduo que dará o poder aos alunos, mas sim um elemento desestabilizador, desconstrutor e desnaturalizador dos discursos de poder presentes nos currículos e no contexto social escolar como um todo, possibilitando descobertas de novas formas de poder e libertação entre seus alunos.
Poder e empoderamento na cultura visual
A arte molda o mundo, sendo o seu poder visual utilizado por imperadores, capitalistas e governantes pra subjugar e controlar seus súditos há milhares de anos. Seu poder se justifica, como nos diz Nigel Spevey (2005), principalmente por seu alcance imediato e quotidiano: a impressão das imagens dos rostos do Imperador grego Alexandre O Grande, do caudilho espanhol Francisco Franco e da monarca britânica Elizabeth II nas moedas que circularam em seus reinos e impérios, por exemplo, geraram (e ainda têm gerado) familiaridade pública dessas figuras de poder em diferentes épocas e contextos.

O rosto dos poderosos nas moedas é um lembrete diário de quem está no comando, de quem tem poder. Essas e muitas outras estratégias visuais de poder surtem efeito público porque, de acordo com Spevey, as imagens possuem uma faceta misteriosa e mágica: a capacidade de descrever, reter e conectar passado e futuro por meio da aparência. Justamente é essa perceção quase instantânea de signos familiares que faz com que a leitura dos discursos visuais pareça uma coisa natural, não uma construção cultural.
Há uma ligação entre os modos como a arte e os media podem imprimir ideologias dominantes, normalmente por meio da centralização da produção e distribuição visual por quem detêm poder. Há a possibilidade, contudo, do surgimento de discursos visuais alternativos, onde grupos marginais subverteriam a ordem normal de poder visual. É o caso de movimentos como o culture Jamming, nos Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo.

O culture jamming (Dery, 2010) é um excelente exemplo de empoderamento visual. Trata-se de uma prática de remix visual que desconstrói as narrativas dominantes dos media. Na imagem acima, por exemplo, o artista Banksy critica o consumismo e a publicidade infantil, classificando essas práticas como violentas, relacionando figuras conhecidas da cultura infantil norte-americana à imagem de Napalm Girl, famosa fotografia da guerra do Vietnam. Há, portanto, uma reação visual, um empoderamento: Banksy percebe-se com o poder de apropriar-se dos signos visuais de consumo, dominantes, transformá-los e republicá-los na forma de arte urbana (graffiti).
A partir deste entendimento de poder visual e mediático baseado na luta simbólica entre discursos dominantes, subordinados e opositores (Hall, 1980), penso no empoderamento mediático e visual como modos de apropriação e transformação performativa das linguagens dos media e das artes visuais. Os media sociais representam, neste cenário, uma possibilidade concreta de descentralização do poder, uma vez que a figura do editor, enquanto sujeito, é suprimida, com conteúdos produzidos e distribuídos pelos próprios consumidores/usuários que constroem suas redes sociais.


Nos exemplos acima, extraídos de páginas do Facebook portuguesas, há uma reinterpretação de notícias a partir do remix visual. Os criadores dos memes sentiram-se, de alguma maneiras, afetados pelos discursos do mainstream dos jornais portugueses, e expressaram sua crítica por meio da re-criação visual e do compartilhamento/participação em redes sociais com essas obras. As redes sociais parecem estar possibilitando, pelo menos de forma latente, a amplificação da multiplicidade de vozes.
Percebo, entretanto, que não basta o simples acesso às ferramentas de criação e compartilhamento de memes para que haja qualquer empoderamento. Fazer memes e remixes visuais pode ser, como em qualquer outra forma de produção de discurso, uma maneira de reafirmar estereótipos sociais, fora do que consideramos “crítica”. Os empoderamentos visual e mediático que defendo dependem de uma apropriação crítica dos meios de produção visual, algo possível através da articulação de competências visuais e mediáticas contextualmente situadas, as quais busco descobrir e mapear em nossa proposta curricular no projeto de investigação EVMS (meu projeto de doutoramento).
Referências
Dery, M. (1993).‘Culture Jamming: Hacking, Slashing, and Sniping in the Empire of Signs’.
Hall, S. (1980). Encoding/decoding. Culture, media, language, 128-138. Retrieved from: http://www.hu.mtu.edu/~jdslack/readings/CSReadings/Hall_Encoding-n-Decoding.pdf
Simon, R. (1987). Empowerment as a Pedagogy of Possibility. Language Arts, 64(4), 370-382. Retrieved from http://www.jstor.org/stable/41961618
Spevey, N. (2005) How Art Made The World – A journey to the origins of Human Creativity. N. York: Basic Books